Meus pais sempre foram meus incentivadores no mundo da informática, meu pai cético no inicio, mas com o tempo foi apoiando e só me jogou para frente. E foi com ele que uma história inesperada relacionada ao mundo dos micros de 8bit ocorreu. Como gosto de relebrar o que passou, divido com vocês esse momentos. “Então, senta que la vem história”.
Por volta de 1985, meu pai chega em casa com um computador de baixo do braço, que pertencia um primo, que mora fora e tinha vindo de férias ao Brasil visitar os pais. Éra uma máquina que eu nunca tinha ouvido falar, não fabricava nem era comercializada por aqui, chamava Tomy Tutor.

Na época, eu já tinha um TK2000, mas meu pai acreditou que experimentar algo diferente poderia ampliar meu aprendizado. O Tutor com seu design compacto, manual colorido e totalmente inusitado, me deixou muito animado. No entanto ao testá-lo percebi que era lento e voltado para crianças, uma espécie de “primeiro contato” com a informática. Não que eu fosse o experiente na área, mas senti a limitação rapidamente.

Acabei ficando com o micro mais de um mês e foi bem divertido, aproveitei para ver as difernças entre o Basic dele e do TK e digitar os programinhas de seu manual para saber o que tinha de legal. Ele parecia ter recusos de vídeo melhores que meu TK2000 e o CP400, que meus amigos Pedro Pamplona e Leandro Nascimento possuiam. Também achei os comandos do Basic próximo dos micros desses meus amigos, imaginei que o Tutor poderia ser um TRS-Color da vida, mas só vim saber sua origem escrevendo para o blog.



Como idéia era vendê-lo, assim que meu pai perguntou se valeria ficar com a máquina, eu disse que não. Realmente não fazia sentido trocar o TK nele, não tinha periféricos e softwares disponiveis para ele no Brasil, tinha menos mémória que meu micro, ou seja, erá uma novidade sem futuro. Mais e se eu pudesse ficar com ele e com meu TK ? Entretanto não tive coragem de perguntar se poderia ficar com os dois, ter um computador em casa ainda era algo muito raro, dois era fora de cogitação.
Origem
O Tomy Tutor nasceu em 1982, no Japão, sob o nome Pyūta. A Tomy, conhecida mundialmente por seus brinquedos, decidiu aventurar-se no mercado dos microcomputadores domésticos, que estava em plena expansão. A idéia era simples: criar uma máquina acessível, fácil de usar e que pudesse servir tanto para jogos quanto para introduzir crianças e jovens ao mundo da programação.
Quando o computador atravessou fronteiras, ganhou novos nomes. No Reino Unido foi chamado de Grandstand Tutor, enquanto nos Estados Unidos recebeu o título de Tomy Tutor. Essa multiplicidade de nomes refletia a tentativa da empresa de adaptar sua criação a diferentes mercados, mas também acabou contribuindo para certa confusão sobre sua identidade.

Apesar do esforço, o Tutor não alcançou o mesmo impacto de concorrentes como o Commodore 64 ou o TI-99/4A. Ainda assim, sua proposta híbrida, meio brinquedo, meio computador o tornou uma peça curiosa e distinta na história da computação.
O cenário dos anos 80: a corrida dos micros
No início da década de 1980, os microcomputadores domésticos tornaram-se símbolos de inovação e desejo. Cada país tinha seu modelo marcante, e juntos eles formavam um mosaico tecnológico que moldou gerações.
Nos Estados Unidos, o Apple II já havia conquistado escolas e lares, tornando-se referência em educação e produtividade. Pouco depois, o TRS-80, da Tandy/Radio Shack, popularizou-se como uma opção acessível, abrindo caminho para que muitos americanos tivessem seu primeiro contato com a computação.
Na Europa, especialmente no Reino Unido, o ZX Spectrum da Sinclair, tornou-se um fenômeno cultural, enquanto o Commodore 64 dominava o mercado mundial com sua impressionante capacidade gráfica e sonora.
No Japão, o MSX surgiu em 1983 como um padrão aberto, reunindo fabricantes como Sony, Panasonic, National, Yamaha, etc. Ele se destacou por sua compatibilidade e por uma vasta biblioteca de jogos, tornando-se um dos micros mais queridos em países como Brasil e Espanha.
O Brasil e os micros da época
Enquanto nos Estados Unidos Europa e Japão a disputa entre Apple II, TRS-80, MSX e Commodore 64 ditava tendências, no Brasil o cenário era diferente. Por conta das restrições de importação e da chamada “reserva de mercado”, muitos computadores internacionais não chegavam oficialmente por aqui. Isso abriu espaço para versões nacionais e adaptações.
O TK2000, por exemplo, era inspirado no Apple II e se tornou uma das opções mais acessíveis para quem queria dar os primeiros passos na informática. Já o TRS-80, embora não fosse vendido amplamente no Brasil, influenciou bastante os modelos nacionais. Pouco depois, o MSX conquistaria uma legião de fãs brasileiros, graças à sua compatibilidade e à enorme biblioteca de jogos que circulava em fitas e cartuchos.
Nesse contexto, receber um Tomy Tutor em casa era ter um visitante estrangeiro, que ficaria isolado e que nunca faria parte da realidade brasileira. Para quem já estava acostumado com máquinas como o TK2000, o Tutor tinha um ar mais lúdico, quase infantil, reforçando a ideia de que era voltado para iniciantes e crianças. Cheguei a mostra-lo para meus amigos que tinham computador em casa, e o pensamento entre eles foi muito parecido com o meu, divertido por ser uma novidade para agente, mas para por ai.

Especificações técnicas
Por trás do design compacto e do teclado de borracha com uma chamativa barra de espaço rosa, o Tomy Tutor escondia uma arquitetura curiosa. Seu coração era o processador Texas Instruments TMS9995, uma versão simplificada do TMS9900 usado no TI-99/4A. Rodava a cerca de 2,7 MHz, embora algumas versões tenham sido listadas com clock maior.
A memória era modesta: 16 KB de RAM expansível até 64 KB, acompanhada de 20 KB de ROM que incluíam o Tomy BASIC e programas gráficos como o Tomy Paint. Para gráficos, o Tutor utilizava o chip TMS9918, o mesmo que equipava os computadores MSX, oferecendo resolução de 256 × 192 pixels com até 16 cores e suporte a sprites, recurso valioso para jogos.
O som vinha do chip SN76489AN, também presente em consoles como o Sega Master System, capaz de gerar três canais de áudio (dois musicais e um de ruído), cobrindo oito oitavas.
Em termos de conectividade, o Tutor oferecia:
- Porta para joystick (não compatível com o padrão Atari).
- Saída RF e vídeo composto.
- Slot para cartuchos.
- Conexão para gravador de fita cassete.
Fisicamente, era leve e portátil, pesando cerca de 1,7 kg. Possuía nativos o Tomy BASIC em ROM (ambiente inicial).















Periféricos e expansões
O Tomy Tutor podia ser expandido com alguns acessórios que buscavam dar mais versatilidade à máquina:
- Cartucho BASIC1 TP1521 (ANSI BASIC) – versão mais avançada do BASIC.
- Cartuchos ROM – jogos e aplicativos.
- Gravador de fita cassete – para salvar/carregar programas.
- Joysticks dedicados – diferentes do padrão Atari.
- RAM-cartridge – expansão de memória.
- Adaptador conversor para jogos (1st Pyūta) – ampliava compatibilidade de cartuchos.
- P-Code Card – expansão rara que habilitava o UCSD p-System, permitindo uso de Pascal e suporte a drives de disquete externos, raras e pouco utilizada, em fução do Tutor não ter tido grande penetração no mercado.
O UCSD p-System (um sistema acadêmico baseado em Pascal), trazia alguma possibilidade de expansão para quem quisesse experimentar algo mais avançado.
Cartucho BASIC1 TP1521



Adaptador conversor para jogos (1st Pyūta)


Joysticks dedicados

Software e aplicativos
Embora o Tutor fosse mais lembrado pelos jogos, também havia software educativo e utilitário:
- Tomy BASIC – embutido na ROM, era o ambiente inicial para programação.
- Tomy Paint – aplicativo gráfico simples para desenhar na tela.
- Programas educacionais – voltados para matemática, lógica e introdução à programação.
- Aplicativos de produtividade – limitados, mas incluíam editores de texto básicos e planilhas simples.
Tomy Paint

Jogos
A biblioteca de jogos do Tomy Tutor era pequena, mas incluía alguns títulos bem avaliados e divertidos:
- Athletic Land (1983) – jogo de ação com obstáculos, bastante popular.
- Battle Fighter (1983) – jogo de luta simples, mas chamativo para a época.
- Baseball (1983) – esportivo que agradava pela jogabilidade direta.
- Bombman (1982) – ação arcade, lembrando os clássicos de fliperama.
- Frogger (1982) – adaptação do famoso arcade, trazendo reconhecimento imediato.
- Pooyan (1983) – outro título arcade que ajudava a dar apelo ao Tutor.
- Scramble (1982) – jogo de nave espacial, típico dos arcades da época.
Apesar de não ter uma biblioteca extensa, o Tutor se apoiava em jogos que eram adaptações de sucessos dos fliperamas, o que ajudava a atrair crianças e jovens.


Recepção e legado
O Tomy Tutor teve uma recepção modesta. No Japão, onde foi lançado como Pyūta, vendeu cerca de 120 mil unidades, número razoável, mas insuficiente para competir com gigantes como o MSX, que logo dominaria o mercado local. Nos Estados Unidos e no Reino Unido, a máquina foi recebida com curiosidade, mas não conseguiu se firmar diante da força do Commodore 64 e do Apple II, que já estavam bem estabelecidos.
Em 1984 foi lançado seu sucessor, o Tomy MKII, comercializado apenas no Japão e partilhando
a mesma arquitetura básica de 16 bits, baseada em chips da Texas Instruments. As principais diferenças residem no teclado, que passou de um modelo de borracha para um teclado mecânico completo e revisões internas da ROM para incluir suporte a linguagens de programação e software ocidental.
Diferenças Notáveis
- Hardware Interno: A placa-mãe do mk II é quase idêntica à do modelo original, sendo o mk II essencialmente um “facelift” focado na ergonomia do teclado.
- Firmware: O Pyūta mk II utiliza uma versão da ROM (v2.3) idêntica à do Tomy Tutor americano, o que o torna mais compatível com o software lançado fora do Japão do que o Pyūta original.
- Design: O modelo original possui um corpo mais compacto com o teclado integrado de borracha, enquanto o mk II apresenta um design de computador doméstico mais tradicional.


Conclusão Pessoal
O Tomy Tutor apareceu como um visitante, uma máquina curiosa e diferente, não era comum acesso a micros importados, com isso o diferente causava impácto. Mais do que um computador, foi uma lembrança de como os anos 80 foram uma época de experimentação, onde cada empresa tentava inventar o futuro e o Tutor foi a aposta da Tomy nessa corrida.
Essa história voltou a minha memória por ter sido uma inciativa do meu pai em apresentar algo diferente, assim como foi dele a inciativa de me fazer olhar para o MSX com outros olhos. Mas essa é uma outra história…..

Imagens encontradas na internet, assim com informações técnicas, infelizmente não tenho fotos de época para registro dessa inesperada história.


























































































































































































